Origens esquecidas: Imigrantes do Leste Europeu que perderam seus nomes

Publicado em 16 de Julho de 2020

Os imigrantes do Leste Europeu:

Apesar de pouco comentada, a imigração de pessoas do Leste Europeu para o Brasil não foi irrelevante numericamente. Considerando apenas os poloneses, como aponta a historiadora e socióloga Maria Silvia Bassanezi, o número de imigrantes seria do mesmo nível que a imigração japonesa e alemã1. No entanto, há uma série de desafios na compreensão desse grupo migratório em nosso país, que muitas vezes não era categorizado de forma específica nos censos ou, quando isso ocorria, haviam erros na identificação da origem.

Um dos fatores que dificultam a compreensão de descendentes de pessoas do leste-europeu quanta à origem exata de seus familiares é o fato de que, ao chegarem em terras brasileiras, esse grupo de imigrantes terem sido categorizados a partir da denominação nacional fornecida pela potência que ocupava sua região originária, especialmente no caso das migrações anteriores à Primeira Guerra Mundial (por exemplo, esses migrantes seriam considerados russos, austríacos ou prussianos, por partirem de territórios ocupados pelos Impérios Russo, Austro-Húngaro e da Prússia)2. Assim, ao examinarmos documentos migratórios, permanecemos com dúvidas quanto aos números exatos de imigrantes de cada nacionalidade e etnia, por muitos terem sua origem verdadeira apagada. Por isso, a memória dos imigrantes, passadas de descendente em descendente no Brasil, é um dos meios de solidificar essas histórias e experiências.

Em relação à imigração proveniente da Rússia, que não deixou de abranger várias nacionalidades e etnias do Leste Europeu, o historiador Geraldo Cortês aponta que isso se deu em três períodos: de 1887 a 1898, de 1905 a 1914 e de 1920 a 1930, que foram influenciados pela cultura cafeeira, pelas facilidades de transporte oferecidas aos imigrantes e o incentivo às políticas de financiamento de imigração em São Paulo3. A emigração russa direcionou-se aos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, além da região Sudeste como um todo. No final do século XIX e início do XX, tais imigrantes supriram a falta de mão de obra nos centros industriais, bem como participaram da construção de ferrovias e da lavoura4.

“Principais portos brasileiros para recebimento de imigrantes”. Fonte: IBGE, adaptado por Alexander Vorobieff

No início da década de 1870, chegaram ao Brasil os primeiros grandes grupos de imigrantes da Rússia, sendo em sua maioria camponeses pobres, que migraram por razões econômicas, políticas e religiosas (quanto às motivações religiosas, destacam-se os staroveri, grupo de uma das divisões mais antigas da Igreja Ortodoxa Russa, tratando-se de dissidentes). Cabe mencionar que, apesar de originários da Rússia, uma minoria deles era de fato russa (conforme os critérios étnicos do Império), sendo os imigrantes de origem polonesa, ucraniana, alemães, judeus, integrantes dos povos bálticos, e outros grupos que viviam na região. Segundo a Hospedaria dos Imigrantes, a década em questão teve imigração russa intensa, mas que cessou nos seus últimos anos, em razão do tratamento desumano dado pelos proprietários de terra e produtores de café.  Somente com a proclamação da república e a criação de novas legislações, em 1889, que as barreiras migratórias foram reduzidas, adotando-se leis mais favoráveis aos imigrantes e realizando-se propagandas no exterior que estimulavam a vinda ao Brasil5. Em face desse cenário, deu-se a “febre brasileira”, com a migração em massa de camponeses russos, poloneses, lituanos e bielorrussos, que deixavam o Leste Europeu para morarem no Brasil6.

Na década de 1880, em face movimentos contrários aos imperadores russos e ao processo de russificação, marcados pelo assassinato do Imperador Alexandre II, uma série de deportações de participantes de revoltas e motins ocorreram, resultando na emigração de poloneses, letões, ucranianos e judeus da Rússia para países das Américas. Cerca de 54,5 mil pessoas das regiões da Polônia, Lituânia, Finlândia e Ucrânia teriam migrado para o Brasil entre 1870 e 19107. Além das deportações, muitas dessas populações decidiram emigrar, especialmente em razão dos pogroms (ataques violentos e massivos contra um grupo de pessoas, com destruição de seu ambiente doméstico, cultural, laboral e religioso) direcionados a elas.

“Staroveri russos na colônia de Santa Cruz” (1967)

No início do século XX, o Estado de São Paulo passou a comprar terras para dividi-las entre grupos de imigrantes de mesma origem e, ciente do fluxo migratório da Rússia em razão da Revolução de 1905 e da guerra contra o Japão, o governo paulista criou o Núcleo Colonial Nova Odessa para agricultores russos. Em maio de 1905, chegaram onze famílias de judeus russos e, em agosto do mesmo ano, mais 379 desses migrantes8. Entretanto, até o final daquele ano, poucas famílias permaneceriam no núcleo, posto que não eram agricultoras. Dessa maneira, o governo brasileiro foi informado de que o governo russo era contrário à emigração de seus súditos, exceto dos judeus, cuja saída era facilitada. Assim, o governo brasileiro decidiu trazer letões, súditos do Império Russo, que já possuíam colônias em Santa Catarina e Rio Grande do Sul, resultando na chegada de quarenta famílias da Rússia e da Letônia para ocuparem Nova Odessa. No período entre 1915 a 1918, o segundo lugar de entrada de imigrantes, que era categorizado como “outras nacionalidades” (por não serem portugueses, espanhóis, alemães, italianos e japoneses, por exemplo), constituía-se de imigrantes da Polônia, Rússia e Romênia9.

Pensando em grupos de imigrantes mais recentes, cabe citar a Vila Zelina, um bairro paulistano marcado pela imigração leste-europeia, cuja fundação ocorreu por volta de 1927. Cláudio Monteiro Soares Filho, um dos grandes proprietários na região, delegou parte de suas funções para um imigrante russo chamado Carlos Corkisko, que instalou uma hospedaria de imigrantes no bairro, o que atraiu mais imigrantes da Europa Oriental. O bairro recebeu esse nome em razão da filha de Soares, Zelina. Muitos desses imigrantes trabalharam em indústrias e fábricas da região, enquanto outros abriram seus negócios no bairro. Entre outros imigrantes e seus descendentes que hoje em dia formam a identidade local, há os lituanos, russos, búlgaros croatas, eslovenos, estonianos, letões, húngaros, poloneses, bielorrussos, romenos, tchecos e ucranianos10.

Descendentes com origens esquecidas:

Com a entrada de centenas de milhares de imigrantes do leste europeu em solo brasileiro, as hospedarias tiveram um árduo trabalho no registro de seus nomes, o que gerou uma grandiosíssima confusão na busca por informações. Muitos dos funcionários dos alojamentos não estavam acostumados com imigrantes da parte oriental da Europa, ocasionando problemas de transliteração, escrita e entendimento de idiomas tão inóspitos. A grande maioria dos imigrantes/refugiados eram analfabetos, o que impossibilitava uma correção precisa de suas inscrições.

Diversos foram os problemas no registro de tais imigrantes: nomes aportuguesados propositalmente, trocados ou escritos de maneira errônea, países de origem não relatados, falta de informações e confusão de familiares11. Russos, tchecos, lituanos, iugoslavos, poloneses, ucranianos, bessarábios, judeus e mais algumas dezenas de nacionalidades e etnias acabaram sem documentos concretos sobre sua chegada ao Brasil. Tudo contribuiu para que as futuras gerações de descendentes esquecessem suas verdadeiras origens.

Um fato que se tornou extremamente importante para o entendimento do abandono de muitas raízes: os imigrantes não possuíam permissão para falarem em seu idioma nativo, obrigando-os a aprender a língua portuguesa. Tratados muitas vezes como escravos, os imigrantes tiveram, inclusive, seus nomes trocados por proprietários de terras, tornando-se impossível um registro exato sobre muitas famílias que por aqui passaram. Ivan tornou-se João. Yakov transformou-se em Joaquim. Georgy passou a ser Jorge. Pyotr virou Pedro.

“O conhecimento que tenho é sobre a leva de imigrantes pós-Segunda Guerra. Muitos, por motivos diversos, mudaram seus sobrenomes e até seus locais de nascimento. Muitos se registraram como iugoslavos, búlgaros e outras nacionalidades eslavas. […] Aconteceram erros também cometidos pelos burocratas o que fez com que, por exemplo, um russo fosse registrado como bielorrusso ou sérvio. Aqui no Brasil também ocorreram erros de registros de nomes. Conheço um ucraniano de sobrenome Kostiuk que foi registrado como Costa.”

Ludmila Vorobieff em “Identidade e Memória da Comunidade Russa na Cidade de São Paulo” (tese de Alexandre Vorobieff)

Através de mapeamentos do IBGE e estudos demográficos realizados por antropólogos, sociólogos e geógrafos, concluiu-se que de 1884 a 1958 entraram no Brasil mais de 110 mil russos. Atualmente acredita-se que existam mais de 1,8 milhões de descendentes russos espalhados pelo país. Abaixo, seguem alguns relatos sobre descendentes russos e de outras etnias eslavas que tiveram seus sobrenomes retirados ou esquecidos:

“Meu nome completo é Devanir José de Oliveira Junior, tenho 28 anos e meu bisavô se chamava Grzegorz Lucki. Veio como imigrante bielorrusso ao Brasil. Aqui ele era conhecido como ‘Jorge’ e, com o decorrer das gerações, apesar de meus parentes terem herdado o sobrenome, eu não o herdei.”


“Meu nome é Massimo Chelli. Tenho 19 anos. Minha bisavó se chamava Stefania Wyatrowska. Já meu bisavô, chamava-se Mieczizlaw Wyatrowsky. Eram poloneses. Seus filhos não quiseram continuar com os nomes da família, então os retiraram.”


“Meu nome é Bruno Rodrigues Gonzalez. Tenho 20 anos. Minha bisavó era imigrante russa no Brasil. Ela se chamava Paula Braguin. Não se tem muitos registros sobre ela, exceto um documento e os relatos de minha família. Seu primeiro nome foi aportuguesado. Inicialmente achava que era de origem tcheca, até descobrir que ela veio de território russo.”


“Meu bisavô era esloveno. Em uma conversa com meu pai, descobri que seu nome era Stepan Uršini. Veio da Iugoslávia, durante a Segunda Guerra Mundial. Minha família não continuou com o sobrenome, esquecendo-se totalmente das origens bálcãs. Até hoje tenho dificuldades de encontrar informações sobre sua chegada ao Brasil. Meu nome é Isabella Amaral de Lima Teixeira, tenho 23 anos.”


“Meu nome é Davi Napoleão Tavares da Silveira, tenho 20 anos e meu bisavô era imigrante russo. Chamava-se Nikolai Kizyak e veio ao Brasil no período pós-Segunda Guerra Mundial. Algumas histórias de minha família dizem que ele foi um combatente do fronte oriental, mas nada com 100% de certeza. Quando chegou ao Brasil teve de adotar outro nome, para evitar ser identificado no período da ditadura militar, o que dificultou em minha busca por mais informações.”


“Minha tataravó polonesa se chamava Athenodora Zaloseski de Germonville MacDyna. Nasceu em 1870 e veio ao Brasil logo após se casar. Pelo fato de possuir o título de condessa, tornou-se famosa na região em que morava. Teve seis filhos, porém o único sobrenome que perdurou em minha família foi o ‘Dyna’. Meu nome é Fernanda Aldrey Dyna e tenho 18 anos.”


“Meu nome é Eduardo Pimenta de Melo, tenho 35 anos e minha avó era sérvia. Chegou ao Brasil em 1934 e seu nome foi trocado quando se casou com o meu avô. Sua história era meio confusa, não gostava de falar muito sobre o assunto. Chamava-se Olenka.”


De acordo com alguns relatos de integrantes das comunidades russas de São Paulo e do Rio Grande do Sul, famílias inteiras tiveram seus nomes, patronímicos e sobrenomes alterados, dificultando inimaginavelmente a busca pelas origens de alguns descendentes. “Sempre achei que minha família fosse 100% portuguesa, mas me enganei”, disse um dos entrevistados.

Diante de tais fatos históricos, faz-se necessário lembrar: o Brasil é provavelmente o país com a maior miscigenação de povos e etnias do planeta. Todos possuímos histórias de familiares esquecidos por gerações. Mesmo assim, para que se haja um maior entendimento de si mesmo, é preciso encontrar-se com o passado para que se haja um futuro.

Texto de Laura Kirsztajn e Matheus Jorge.


Referências:

1BASSANEZI, Maria Silvia C. Beozzo. Imigrações internacionais no Brasil: um panorama histórico, 1996. In: Emigração e Imigração Internacionais no Brasil Contemporâneo, Ed. Neide Patarra. São Paulo: FNUAP/NESUR/NEPO.

2DECOL, René D. Uma história oculta: a imigração dos países da Europa do Centro-Leste para o Brasil. Anais do XII Encontro Nacional de Estudos Populacionais da ABEP. Caxambu: ABEP, v. 1, 2000.

3CORTÊS, G. M. Migração e Colonização no Brasil. Rio de Janeiro: Livraria José Olimpio, 1958.

4BYTSENKO, Anastassia. Imigração da Rússia para o Brasil: visões do Paraíso e do Inferno (1905-1914). Dissertação (mestrado) Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. São Paulo, 2006. Disponível em: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8155/tde-12112007-132926/publico/TESE_ANASTASSIA_BYTSENKO.pdf

5CADERNOS DO PATRIMÔNIO. Secretaria da Comunicação Social e da Cultura do Paraná. A represa e os colonos. Série estudos 2, Curitiba, 1986.

6WACHOWICZ, C. A. A “febre brasileira” na emigração polonesa. In: Anais da comunidade brasileiro-polonesa. Curitiba, v. 1, 1970, p. 36-37.

7MIRONOV, B. N. Socialnaia istoria Rossii perioda imperii (XVII – natchalo). São Petersburgo: Ed. Dmitri Bulanin, 200, str. 328, p. 76.

8Relatório da Hospedaria dos Imigrantes de maio de 1905. Arquivo do Estado de São Paulo, Ordem nº 4680.

9LEVY, Maria Stella Ferreira.O papel da migração internacional na evolução da população brasileira (1872 a 1972). Rev. Saúde Pública [online]. 1974, vol.8, suppl., pp.49-90.

10Identidade São Paulo. Vila Zelina. Disponível em: http://identidadesp.com.br/vila-zelina/. Associação dos Moradores e Comerciantes do Bairro de Vila Zelina. Histórias  memória oral & fatos. “O Leste Europeu de São Paulo está aqui”. Disponível em: http://amoviza.org.br/historias.asp

11VOROBIEFF, Alexandre. Identidade e Memória da Comunidade Russa na Cidade de São Paulo. Dissertação (mestrado) Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. São Paulo, 2006. Disponível em: https://teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8136/tde-18062007-141410/publico/TESE_ALEXANDRE_VOROBIEFF.pdf

Braziliya Syegodnya. Русские в Бразилии: история русской эмиграции и соотечественники в Бразилии. Disponível em: https://brasil-russia.ru/russkie-v-brazilii/

KHISAMUTDINOV, Amir Aleksandrovich. Русские в Бразилии. Vladivostok, 2005. Disponível em: http://www.ilaran.ru/?n=122

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